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Archive for junho \26\UTC 2012

Primeiras Lembranças

Ulysses e EuMinha primeira infância foi em Dracena, cidade próxima à fronteira de São Paulo com Mato Grosso (hoje, Mato Grosso do Sul), perto de Panorama, às margens do rio Paraná. Fomos algumas vezes a esse lugar, e lembro-me (porque me contaram) que ainda era um local selvagem, com densas matas às margens do rio, onde se avistavam onças pintadas e seus rastros pelas estradas e trilhas; do lado matogrossense dizem que havia até uma tribo indígena… hoje, pesquisando nos mapas da FUNAI, constatei que existe, de fato, a Terra Indígena Ofayé-Xavante nessa região.

Havia um hotel de madeira, construído sobre palafitas, onde nos hospedávamos. Em épocas de muita chuva o hotel ficava parcialmente sobre as águas do rio. A estrada para Panorama era de terra e, nos dias de chuva, repleta de muito barro, onde os carros atolavam com frequência. Mas tudo isso são lembranças dos outros, pois quase nada ficou em minha memória. Sei que atravessávamos o rio dentro de uma balsa, uma grande plataforma de madeira sustentada sobre as águas por barris de metal. Devia ser uma aventura incrível fazer essa travessia, pois a correnteza do rio é muito forte e perigosa, e nem imagino como nossa mãe teve coragem de fazer isso! Acho que herdei dela e de meu pai esse meu espírito aventureiro…

De Dracena tenho mais recordações, pois moramos lá até eu completar nove anos. Minha mãe era professora em uma escola pública de madeira, construída sobre pilares, deixando um amplo espaço sob as classes, onde as galinhas ciscavam e largavam suas penas e piolhos, inimigos das professoras, a quem cabia controlar o asseio e a saúde de seus alunos. No meio do pátio ficavam as “casinhas”, pequenos banheiros feitos também de madeira, cubículos com um buraco no chão onde fazíamos as necessidades, e de onde provavelmente saía um mal-cheiro insuportável.

Dinah e EuMinha mãe e Professora foi quem me ensinou as primeiras letras. Lembro-me da cartilha “Caminho Suave” e dos painéis ilustrados, que ela utilizava para nos orientar na grafia das palavras. Era uma professora enérgica e dedicada, que nos ensinava o respeito aos livros e o gosto pela leitura. No início do ano ela encapava os cadernos e livros das crianças, com todo cuidado. As salas eram enormes, com mais de 40 alunos, sob um calor insuportável, e com crianças do povo, de todos os níveis sociais e econômicos. Naquela época só havia a opção das escolas públicas que, no entanto, eram excelentes!

O diretor da escola era um déspota, que ficava vermelho de raiva por qualquer motivo, e colocava os alunos de castigo, de pé, com os braços abertos, e um monte de jornais em cada mão, até que o menino os deixasse cair por exaustão. Aí vinha a palmatória, uma lambada que deixava as marcas vermelhas na pele e as chagas no coração. Isso era normal naqueles tempos: bater, castigar, humilhar… hoje seria considerado “bulling” e daria cadeia e expulsão do diretor, com certeza! Felizmente, eu era um aluno exemplar e nunca fui levado à presença desse ser execrável e nojento…

Eu ainda me lembro da igreja, onde íamos todos os domingos, de charrete puxada a cavalo, vestidos com nossa melhor roupa. Essas charretes eram os vestígios das carruagens nesse mundo em transição. A igreja era uma construção grande, inacabada, ainda com os tijolos à vista, sem pintura e sem reboco.  Aos meus olhos de criança parecia uma Basílica imensa, com sua abóbada arredondada bem na parte central da igreja. Hoje, vendo sua foto, vejo que era, de fato, muito grande e imponente! Parece-me que ela ficava no alto de uma colina, o que a tornava majestosa para uma cidade tão pequena.

Dracena tinha uns dez anos de existência e menos de 10 mil habitantes.  Boa parte dos moradores eram descendentes de japoneses, agricultores ainda muito apegados às suas tradições orientais, falando sua língua natal e preservando costumes estranhos para nós, como comer peixe cru e usar palitos de madeira em lugar de talheres. Lembro-me de uma grande festa que houve na cidade, para comemorar os cinquenta anos da imigração japonesa, em junho de 1958.  Jogavam “baseball”, esporte introduzido pelos americanos depois da 2ª guerra; trouxeram artistas do Japão, que dançavam com aquelas vestimentas coloridas (kimonos), ao som de músicas que me pareciam desafinadas e desagradáveis ao ouvido, mas que marcaram de tal modo minha infância que determinaram minha paixão por esse povo para o resto da minha vida: meu casamento com uma japonesa, meus estudos da língua, da literatura, da história, do zen-budismo e da cultura do Japão, minhas melhores, mais sinceras e duradouras amizades, minha dedicação às lutas marciais orientais e meu respeito por um povo que eu acreditava ser de uma civilização milenar, mágica e fantástica! Hoje eu sei que eles não são tão fantásticos assim… principalmente pela caça inclemente às baleias!

Minha mãe cuidava de nós com amor e carinho: acompanhava nossos estudos, preparava as aulas, e cuidava da nossa casa como se fosse uma exposição: tudo impecavelmente limpo, apesar das fortes ventanias e da poeira incessante na cidade. Meu pai era o Contador da agência do Banespa, profissão que desapareceu com a informatização bancária. Era um homem admirado e respeitado pelo seu caráter inabalável, sua dedicação ao serviço e sua honestidade à toda prova. Isso nos inspirou a vida inteira.

Éramos assim, felizes, e vivemos uma infância que poucos tiveram a oportunidade de conhecer. Lembro-me da minha primeira bicicleta e dos passeios que fazíamos, em grupo, percorrendo a cidade. Quando a ferrovia chegou a Dracena nós acompanhávamos com grande expectativa a construção do aterro e da estação, onde íamos disputar loucas corridas, despencando pelas bordas de terra e nos arrebentando no chão, rindo dessa insanidade controlada… acho que, fora os arranhões frequentes, nunca nos machucamos para valer. Depois, descansávamos à sombra dos barracões da ferrovia, sentindo a suavidade da brisa fresca em nossa pele.

Os trens fizeram parte de meu imaginário durante muitos anos; sonhava em ser, um dia, o maquinista de uma locomotiva; ouvia histórias incríveis e tínhamos um disco chamado “O Menino e o Trem”, cuja história falava dessa paixão infantil por aquelas máquinas fantásticas e seus condutores heroicos… Uma melodia ficou guardada em minha memória: “Chegar… partir… passar… o trem, o trenzinho na estação! Alegres os que vêm, alegres os que vão! Adeus! Adeus! Adeus! Chegar… partir… passar… lá vem o trem… lá vem o trem… o trem chegou! Lá na curva apitou, o céu esfumaçou… lá vem o trem… lá vem o trem… o trem chegou!” …até hoje tenho grande admiração por essas estradas de ferro por onde passamos tantas vezes, em bancos de madeira, nos vagões de restaurante, nas cabines de leito “Pullman” da Cia Paulista de Estradas de Ferro, empresa inglesa que se notabilizou pelos serviços impecáveis e pontuais… lembro-me olhando pela janela do trem e vendo a fuligem incandescente saindo da chaminé, a percorrer os caminhos de ferro, riscando o céu com suas pequenas brasas avermelhadas… e o apito a tocar! “piuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii… tchu tchu tchu piuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii… tchu tchu tchu”… que lembranças fantásticas!

Um dia, o prefeito de Dracena, Pezzolatto, resolveu construir uma fonte luminosa; deve ter gastado metade do orçamento da cidade, mas o resultado foi um espetáculo de águas, luzes e sons que atraiu e encantou toda população da cidade na noite de sua inauguração. No dia seguinte, porém, a molecada transformou a fonte luminosa em uma piscina imunda, que causou uma epidemia de doenças e diarreia nas crianças! …e manifestações exaltadas da população pedindo a destituição do prefeito, sob o slogan gritado aos quatro cantos: “Fora, Pezzolatto!”.

Morávamos em uma casa grande (a última antes de nos mudarmos de Dracena), onde criávamos galinhas e passarinhos, como todo mundo, e tínhamos um cachorro, o Teco, nosso amigo inseparável. Teco era um cachorrão que adorava a criançada, apesar de às vezes ser maltratado pela insanidade infantil. Mas ele nunca revidou essas agressões. Nossos vizinhos eram um médico, doutor Pedro, que tinha dois filhos (que eu me lembre): o Pedro Carlos e outro cujo nome já se perdeu em minha memória; um agrônomo, doutor Aldo, e seu filho Audinho; o caixa do Banespa, o “seu” Cid, e sua filha, a Dorinha, meu primeiro amor. Vivíamos praticamente em família: comemorávamos o Natal, o Ano Novo e os aniversários… Natal era uma festa inesquecível para as crianças, pois sonhávamos em ver o Papai Noel…

Em Dracena não havia luz elétrica; apenas um motor de navio que dava energia umas duas horas por dia. Usávamos lampiões de querosene, do tipo “Aladim”, com um vidro bojudo embaixo, afinando-se em uma curva suave até o alto, com uma abertura de ventilação em cima; dentro dele, a “camisinha”: uma telinha de tecido que se tornava incandescente ao ser acesa. Vivíamos nessa penumbra, que dava um ar de eterno romantismo às nossas casas. Mas à noite costumávamos brincar de “pique” na rua, à luz da lua e das estrelas, e de caçar vaga-lumes para fazer lamparinas, enquanto nossos pais se sentavam com os amigos nas cadeiras, conversando e apreciando aquele céu estrelado e imenso, com a Via Láctea percorrendo e iluminando toda sua extensão. Apenas a claridade das estrelas bastava para iluminar a rua; mas em noites de lua cheia, o espetáculo era incomparável!

Meus avós viviam conosco: Candinho e Mariquinha, cada um com suas manias e histórias para nos contar. Vovô Candinho tocava violão de doze cordas e cantarolava suas modas de viola; meu avô também costumava fumar seu cigarrinho de palha de milho, que ele mesmo enrolava com aquele fumo de corda que fedia insuportavelmente e empesteava toda a casa, para tristeza de mamãe… Um dia, meu avô ficou senil e perdeu a memória… perdia-se pelas ruas, e nossos amigos o levavam de volta para casa. Ele tinha uma maleta de couro preta onde guardava seus remédios… não sei para que tantos, mas era uma peça inseparável de seu guarda-roupas. Vovó Mariquinha contava histórias sem fim de sua infância mineira, na Serra da Bocaina, em Aiuruoca, sentada na máquina de costura onde fazia e consertava roupas para toda a família. Descrevia cenas das cheias dos rios, que levavam tudo de roldão: casas, bois, móveis, árvores… tudo boiando, em uma narrativa enriquecida pela sua imaginação fértil e encantadora! Ela se casou aos treze anos, quando ainda brincava de boneca, e teve treze filhos. Mamãe era a caçula das mulheres…

Da esquerda para a direita (apenas os adultos): Neuza, Totinho, Bebé, Isaura, Ulysses,Dinah, Lamartine, Zizinho, Mariquinha, Odila, Lili, Vera e Chiquito.

Em Dracena havia um mercado que atravessava de um lado a outro da rua, com suas quitandas, açougues e lojinhas de bugigangas, onde passeávamos, ora com minha mãe, ora com vovó ou vovô. Também havia um brejo, onde os sapos coachavam nos fins de tarde, fazendo uma algazarra, e onde pegávamos taboa para enfeitar os vasos de mamãe. Tudo isso fazia parte de nossas vidas, assim como o ferro de passar roupas, que funcionava com brasas de carvão, o torrador e a máquina de moer café, a geladeira de querosene, com um motor redondo em cima dela, parecendo um robô, tudo de uma simplicidade espartana, mas que nos satisfazia em nossa simplicidade e modéstia de gente simples do interior.

Todo mundo tinha um rádio em casa, que ficava ligado o dia inteiro, irradiando as notícias da cidade, as fofocas e as músicas caipiras. Mas meu pai tinha algo diferente: ele era rádio-amador! Tinha um aparelho enorme, que era o transmissor, um rádio para sintonizar a frequência, tudo ligado a um enorme varal de cobre de 40 metros (o comprimento das ondas de rádio), que funcionava como antena de transmissão, estendido sobre o telhado da casa, entre dois postes. Essa sala onde ficavam seus equipamentos era conhecida como “Shack”, onde ele recebia os amigos, vizinhos e quem quisesse se comunicar com pessoas distantes. A telefonia da época era muito precária: funcionava com enormes pilhas e uma manivela que, ao girar, acionava a central telefônica da cidade. Lá as telefonistas se encarregavam de fazer as ligações, que costumavam demorar horas para serem completadas, quando era um interurbano. Daí a importância e a função social do rádio-amador.

O prefixo de meu pai era PY2-AGY, fornecido pela LABRE, Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão. Com esse equipamento meu pai falava com o mundo inteiro. Quem se comunicava assim costumava trocar grandes cartões com nome, prefixo, cidade, estado e país de origem, que funcionavam também como cartões postais. Meu pai tinha centenas deles em seus arquivos. Havia uma linguagem de código usada por eles, onde “cristal” representava a esposa, “carvão” o esposo, “diamante” era o pai, “cristaloides”, os filhos, “turmalina”, a namorada, “tubarão” uma estação potente, além de muitas siglas para comunicar o entendimento e a sequência das mensagens. Meu pai também, às vezes, usava o telégrafo, que aprendera quando trabalhou para os Correios, junto com o código Morse, composto de sinais sonoros curtos e longos alternados, muito comum durante a 2ª guerra mundial.

Um dia, meu pai foi procurado para ajudar na busca de um piloto da cidade, desaparecido em um voo para o Paraguai. Havia um grupo de radioamadores que se reuniam diariamente para troca de notícias, e eram conhecidos como a “Rodada da Amizade”. Meu pai comunicou o fato aos amigos e, depois de muitas buscas pelos locais onde poderia ter passado o pequeno avião, descobriu-se que ele tinha caído em Mato Grosso, e todos os ocupantes estavam mortos. Os contratantes do voo eram contrabandistas, segundo revelou, depois, a polícia. O piloto do avião era também o técnico que consertava, eventualmente, o motor de navio que funcionava como gerador de energia elétrica da cidade.

Essas lembranças esparsas compõem o mosaico de minha infância…

Eu e a Camo colecionávamos figurinhas e tampinhas de garrafas, brincávamos com estilingues de forquilha de roseira e bolinhas de gude, e meu pai fazia nossos brinquedos com carretéis de linha, rolamentos de rodas, pranchas de madeira, pipas (papagaios) de bambu e papel de seda, e assim vivíamos na simplicidade que o homem perdeu com o tempo e se esqueceu de como era gostoso confiar nas pessoas e não ter maldades no coração. Quando meus pais decidiram ir embora de Dracena, também resolveram que o Teco, nosso cão, não poderia ir junto, pois seriam centenas de quilômetros de viagem. Meu pai deu o cachorro para um agricultor, que o levou para sua fazenda, alguns meses antes de nossa mudança. Choramos muito mas, depois de algum tempo, até havíamos nos conformado, quando soubemos que o Teco fugira da fazenda e tentara voltar para nossa casa… Teco foi um amigo fiel e insubstituível…

Talvez hoje as pessoas nem consigam imaginar uma vida assim… talvez essa vida lhes pareça monótona e desinteressante… mas éramos felizes como ninguém pode ser hoje em dia, nessa sociedade em que o celular, a internet e a televisão são essenciais para a sobrevivência da espécie humana! Mas não existe mais a sinceridade, requisito primordial para as relações verdadeiras… talvez por isso nossa sociedade seja apenas virtual, falsa, efêmera em suas relações… falta o cafezinho na casa dos amigos, falta o abraço espontâneo e sincero, falta a solidariedade desinteressada, falta o calor da emoção vista nos olhos! Talvez por isso o mundo tenha se tornado insuportável (“insustentável”) e hoje lute, desesperadamente, pela própria sobrevivência!

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Transição

Ulysses

Adormeceu, por fim…

Seu Espírito já não habita esse corpo cansado, incapaz de conter um coração tão generoso e belo.

Sua alma, agora, ascende a outras mansões, onde os Avatares, Seres de Luz, compartilham sua Sabedoria com aqueles que buscam o Caminho. E aqui ficamos nós, com nossa dor dessa separação não desejada, com a alegria de ter compartilhado a Vida de um ser tão nobre e gentil, ambigüidade que nos prende à vida em suas terrenas contradições.

E sua Luz, que era de poucos, agora se reúne à Fonte da Sabedoria Universal. Que sua Paz seja Profunda, meu pai querido, e nos ajude a suportar sua irreparável ausência.

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